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Fábio Zanon - VILLA-LOBOS – OBRAS COMPLETAS PARA VIOLÃO SOLO
O violonista Fábio Zanon lança pela Biscoito Fino as obras completas de Heitor Villa-Lobos para violão solo
“A gigantesca série de 14 choros é a obra magna de Villa-Lobos. Escrita para combinações que vão desde um solo de violão até grande orquestra e coro, sua ambição era a de criar um panorama geográfico que abarcasse todas as correntes musicais do folclore brasileiro. Choros Nº. 1 (ele sempre manteve o título no plural) é dedicado a Ernesto Nazareth, o maior compositor de peças para piano dessa época. Foi intencionalmente escrito no estilo do choro original para servir de ponto de partida. Seus temas, embora originais, são inspirados nas peculiaridades melódicas e rítmicas de compositores populares, como Nazareth, Satyro Bilhar ou Chiquinha Gonzaga. É importante notar que essa é uma música essencialmente urbana: inequivocamente tonal, suas modulações seguem o tradicional ciclo de quintas. O foco de interesse é o gesto, pontuado por inesperados saltos melódicos e pausas charmosas.
Por volta de seus trinta anos, Villa-Lobos foi “descoberto” pelo pianista Arthur Rubinstein que, na época, fazia freqüentes visitas à América Latina. Ele acrescentou ao seu repertório várias peças do compositor brasileiro, e preparou terreno para a primeira viagem do compositor à Europa. Patrocinado por alguns magnatas, Villa-Lobos morou em Paris de 1923 a 1930, onde graças ao seu carisma natural ele se tornou um dos compositores mais respeitados, amigo dos maiores artistas da época e um favorito da imprensa. Motivado pela boa recepção que seu exotismo recebeu, ele se sentiu liberado dos padrões de pequeno-burguês que tinham influenciado seus trabalhos anteriores, e criou uma enorme quantidade de peças experimentais. Em 1929, em um único golpe, ele revolucionou a história do violão compondo os Doze Estudos. O violão ainda gozava de uma reputação dúbia nos anos 20, uma fama que estava progressivamente sendo revertida pelo sucesso de Andrés Segovia. Ele conheceu Villa-Lobos em Paris e pediu-lhe que escrevesse um estudo para violão, mas nunca poderia imaginar que tal torrente de idéias turbulentas e idiossincráticas pudesse brotar de sua pena. Segovia, essencialmente um virtuoso romântico, detestou as peças e, numa carta a Ponce, taxou Villa-Lobos de incompetente. Isso não impediu Segovia, no entanto, de escrever o prefácio das peças publicadas em 1953, mostrando um critério dúplice a respeito de Villa-Lobos. Além disso, Segovia executou, em première mundial no ano de 1947, os Estudos N°. 1, 7 e 8. A série completa, porém, só seria tocada em 1963 por Turíbio Santos, o que prova a caráter futurista dessas peças. A editora francesa Max Eschig publicou os 12 estudos em sua versão definitiva, tendo por base um manuscrito revisado, provavelmente no início dos anos 50. Entretanto, a mesma editora possui a cópia de um manuscrito do compositor, datado de 1928, uma cópia de caligrafia cuidadosa e profissional, que apresenta uma profusão de indicações de expressão e digitações que não foram incluídas na versão final, além de várias discrepâncias em relação ao texto publicado. Muito embora as evidências indiquem que Villa-Lobos publicou exatamente o que queria, eu preferi usar o texto mais detalhado do manuscrito de 1928 para esta gravação. Com esses estudos, Villa-Lobos foi o primeiro compositor a deixar a matéria musical emanar do braço do violão. Isso pode ser notado logo no primeiro estudo, com um exclusivo padrão de “arpeggio” em terça, fazendo reminiscência a Bach e ao Estudo N°. 1 de Chopin.
A idéia do “arpeggio” foi estendida para o diabolicamente difícil N°. 2, um estudo muito clássico, escrito ao estilo de Carcassi, ou Aguado. O de N°. 3 é um estudo de ligaduras (no manuscrito não figura o título errôneo de étude dês arpeges), que introduz um material harmônico de sabor francês e ambiguidades de tons maiores e menores, com extensa utilização do acorde acrescido da sexta. O N°. 4 é um estudo com acordes repetidos, uma fórmula técnica óbvia, embora possa ser interpretada como uma extensão dos desafios tocados pelos “repentistas”, os menestréis do interior do Brasil. A nostalgia do tema principal se deve, em grande parte, ao sétimo grau rebaixado, típico da música aquela área. Aqui, Villa-Lobos explora sua marca registrada de deslocar uma posição fixa ao longo do braço do violão – o paralelismo resultante seria insuportável nas mãos de outro compositor, mas Villa-Lobos maneja o diálogo com as cordas abertas tão habilmente que um prisma inteiro de diferentes funções harmônicas é criado com esse padrão. O de N°. 5 é um estudo “ostinato” que se ajusta perfeitamente ao modelo de Andrade: polifonia e uma linha rica de graves criam uma estrutura única e auto-contida, com o tema modal principal podendo ser facilmente identificada com uma cantiga de roda, não obstante o fato de ser uma criação original. O controle da dinâmica constitui o assunto do N°. 6, cuja abordagem geográfica ao braço do violão seja, talvez, melhor transmitida numa performance ao vivo, enquanto o de N°. 7 é um estudo de escalas feito por um virtuoso, interrompida por uma ampla e generosa melodia sustentada, inspirada pelas obras de César Franck, sobre um acompanhamento semelhante ao de uma embolada (outro gênero de dança brasileira). O de N°. 8 é uma toada melancólica, enriquecida por cromatismos e acordes alterados, de caráter impressionista, enquanto o de N°. 9 mostra em movimento descendente paralelo, uma reminiscência do fado português. Os últimos três estudos formam um grupo de peças deliberadamente primitivas e constituem uma das maiores conquistas do século na escrita para violão. O de N°. 10 é o mais complexo de todo o ciclo, ritmicamente falando: a versão manuscrita contém 33 compassos não publicados, que arredondam a peça de uma forma mais satisfatória e a relacionam com a profusão ornamental das maiores obras desse período, o Choros Nº. 10 e o Rudepoema. A difícil seção de ligaduras foi construída sobre uma base de baixos que é simultaneamente uma versão do padrão de ligaduras em valores mais longos e uma referência a melodias indígenas ouvidas por Villa-Lobos em gravações feitas por uma expedição antropológica. O Estudo N°. 11 exibe uma multiplicidade de referências num estilo semelhante ao da balada, retoricamente narrativo. Nele podemos escutar o ritmo sincopado com acento nordestino e, na seção central, a notável ideia técnica de tocar cinco notas mi em diferentes cordas ao mesmo tempo, evocando a afinação da viola caipira (um violão rústico brasileiro). O Estudo N°. 12 encerra o ciclo numa apoteose de bruitismo: o movimento glissando paralelo dificilmente sugere qualquer centro tonal, e na seção central o violão é tratado quase como se fosse um tambor. O primitivismo de Villa-Lobos não é uma defesa de pontos de vista estéticos; ele é primitivo quando as necessidades da narrativa assim o exigem. Sua bastante citada frase, “o folclore sou eu”, contém um grão de verdade: suas maiores realizações não são obtidas através de um processo mental racional, sendo mais fruto de uma notável intuição, semelhante ao da criatividade popular.
Em 1930, Villa-Lobos voltou ao Brasil e nunca mais voltou a morar fora. Ele se tornou uma reverenciada celebridade nacional e assumiu o papel de educador de música para as massas, com o apoio do ditador Getúlio Vargas. Domou os demônios que apareciam em seus trabalhos anteriores e desenvolveu um novo estilo, tangencial ao neoclassicismo europeu. A série de nove Bachianas Brasileiras e os Cinco Prelúdios são os trabalhos mais conhecidos desse período. O Prelúdio N°. 1 retrata o sertanejo, o homem do campo do interior, e sua solidão na vastidão de seu país. Sua melodia heróica, merecidamente popular, é uma das glórias melódicas desse período. O de N° 2. volta ao estilo despreocupado do choro, numa homenagem ao malandro carioca. A seção do meio sugere o som do berimbau. O Prelúdio N°. 3 é uma homenagem a Bach, o ídolo de Villa-Lobos nesse período, e que ele considerava pertencer ao folclore internacional; com efeito, a idéia melódica da segunda metade é tanto uma referência à Toccata em fuga em Ré Menor, de Bach, quanto um movimento em seqüência descendente, típico das serestas. O Prelúdio N°. 4 é uma homenagem aos índios, mais em seu caráter do que em matéria musical. Nenhum outro compositor maximiza com tanto sucesso a ressonância de seu instrumento. O Prelúdio N°. 5 é uma homenagem à vida social do Rio, um carinhoso olhar retrospectivo de um herói nacional às agruras de sua juventude, como músico de rua. Da mesma forma que nos estudos, uso os manuscritos do compositor nesta gravação. Uma perspectiva histórica linear, na qual os períodos se sucedem um atrás do outro, não pode ser usada para descrever a produção artística brasileira. A heterogeneidade racial, as vastas distâncias e o tipo de organização social contribuem para que todos os períodos históricos coexistam e interajam ao mesmo tempo. O mundo de Villa-Lobos é o da abundância, o da embriaguez com a paisagem e com as influências externas, a fantástica mistura e o glorioso caos de um Brasil eufórico.” Fabio Zanon
Biografia
Fábio Zanon é internacionalmente reconhecido como uma das estrelas do violão clássico no século XXI. Seu amplo repertório, seus projetos inovadores, bem como sua diversificada atividade como regente, professor, escritor e comunicador têm contribuído para ampliar a presença do violão no universo da música clássica.
Como solista, ele tem se apresentado em algumas das salas mais importantes como o Royal Festival Hall em Londres, o Carnegie Hall em Nova York, o Philharmonie de São Petersburgo, a Sala Tchaikovsky em Moscou e o Concertgebouw de Amsterdam e é convidado frequente dos maiores festivais em quatro continentes. Como solista orquestral, além de tocar o repertório tradicional em todo o mundo, ele estreou, nos últimos anos, várias obras contemporâneas e integrou ao repertório regular várias obras-primas esquecidas.
Sua atividade como camerista cobre um amplo espectro que vai do mais tradicional ao mais inusitado. Sua estreia como regente de ópera, em 2006, foi escolhida como melhor espetáculo musical do ano pela revista Veja São Paulo. De 2006 a 2008 escreveu e apresentou o programa O Violão Brasileiro na Cultura FM, uma série de 150 programas que já é considerada um marco no estudo do instrumento no país e adotada até como material didático.
Como professor, já ministrou cursos nas mais importantes escolas, da Juilliard em Nova York ao Conservatório Gnessin de Moscou. Desde 2008 é Professor Visitante da Royal Academy of Music de Londres, uma posto ocupado por músicos da maior distinção, onde atende à elite internacional dos estudantes de violão.
Natural de Jundiaí, SP, Fábio Zanon estudou com seu pai e com o professor Antonio Guedes. Mais tarde se aperfeiçoou com Henrique Pinto e Edelton Gloeden. Em 1990 mudou-se para a Inglaterra, estudou na Royal Academy of Music com Michael Lewin e participou dos master classes de Julian Bream.
Apesar de ser avesso à competição, Fábio Zanon alcançou proeminência internacional ao vencer, em 1996, os dois mais importantes concursos internacionais de violão, o Concurso Tárrega na Espanha e o GFA nos EUA, num espaço de poucas semanas. Desde então ele tem feito turnês anuais na Europa e América do Norte e já se apresentou em mais de 40 países. Em 97 ele foi agraciado com o Prêmio Moinho Santista e em 2005 com o Prêmio Carlos Gomes.
Fábio Zanon é autor do livro Folha Explica: Villa-Lobos.
Assessoria de Imprensa Biscoito Fino
Sidimir Sanches – sidimir@biscoitofino.com.br
Livia Bueno – lbueno@biscoitofino.com.br
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