ALCIONE - DUAS FACES
JAM SESSION
Seja cantando samba, bolero, chanson francesa, samba-canção, jazz, samba de roda, blues, canção napolitana, bossa nova, toada, forró, embolada ou morna cabo-verdiana, Alcione está sempre em casa. Foi assim, à vontade, que a quarta dos nove filhos de tenente João Carlos Dias Nazareth, regente da Banda de Música da Polícia Militar do Maranhão, ganhou o mundo. Portanto, nada mais adequado do que comemorar os 40 anos de carreira levando a expressão ao pé da letra e trazendo para a própria residência, no Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro, essas múltiplas facetas que a acompanham desde o início.
E por início não se entende a carreira fonográfica, inaugurada em 1972 com o compacto "Figa De Guiné" (Nei Lopes e Reginaldo Bessa)/"O Sonho Acabou" (Gilberto Gil). Entre a primeira vez em que cantou no palco, em baile da Orquestra Jazz Guarani, que seu pai regia, até estabelecer-se como grande voz do samba, Alcione brilhou em boates como Little Club, Barroco, Bacarat, Holida, Bolero, 706 e Number One, no Rio. E é muito desse clima intimista e livre de amarras de gênero que ela recupera neste DVD e CD Duas Faces – Jam Session (que por sua vez, é apenas o primeiro dos lançamentos comemorativos; a outra metade, Duas Faces – Ao Vivo Na Mangueira, sai em janeiro de 2012).
Isso só podia ser feito, claro, entre amigos. Os habituais companheiros da Banda do Sol - Alexandre Menezes (teclados), Alvinho Santos (violão), Ricardo Cordeiro (baixo), Paulo Bogado (bateria), Luizão Ramos (sax e flauta), Edmílson Nazareth (percussão) e mais Edson Santana (cavaquinho e bandolim) – ajudam a Marrom a receber as visitas ilustres de Maria Bethânia, Martinho da Vila, Djavan, Emílio Santiago, Áurea Martins e Lenine.
A reuniãozinha começa com a música que dá nome ao projeto, "Duas Faces", de Altay Veloso, que Alcione tinha registrado em 1990, no LP Emoções Reais. Não tem Sade nem "smooth operator" para concorrer com o arranjo que Jota Soares tramou aqui. Intérprete e autor foram feitos um para o outro, fica provado mais uma vez: depois da bela introdução do sax, a malícia do fraseado da cantora dança encaixadinha com a poesia do mestre do samba romântico, traduzindo mais um daqueles casos complicados que todo mundo teve, tem ou terá.
A canção seguinte é uma pérola bem pescada, inédita na voz da Marrom: "Quem Já Esteve Só", de Ivor Lancelotti e Paulo Cesar Pinheiro fossa rara que vai fundo nos abismos do tema, mas com uma dinâmica que só Alcione saberia impor. Sem cerimônia, ela inaugura depois a seção internacional do piano bar, com "Comme Ils Disent", tema de Charles Aznavour que apresenta sem rodeios o cotidiano de um travesti e que rompeu tabus ao ser lançada, em 1972, na França.
Ao bandolim, Edson Santana transporta todos para o sul da Itália já na introdução de "Passione Eterna", outro sucesso setentista (de Mario Merola, um renovador do gênero napolitano) que a cantora traça com gosto. Destaque para a pronúncia saborosa (ela morou dois anos na Velha Bota) e, obviamente, o arrebatamento necessário.
"Rua Sem Sol" é outra joia, só que brasileira, samba-choro de Mário Lago e Henrique Gandelman que Alcione tinha cantado com Angela Maria apenas no programa Alerta Geral, da TV Globo em 1979. Contrita, mas à sua maneira, a interpretação da maranhense busca caminhos diferentes dos seguidos pela "dona" do sucesso. Mesmo com toda a reverência, só podia ser assim.
A seção de convidados é inaugurada com Maria Bethânia e seu maestro, Jaime Alem, com a monumental"Sem Mais Adeus" de Vinicius de Moraes e Francis Hime. As duas amigas – desde os anos 70 - não decepcionam: é um encontro sublime que honra o histórico de gravações da canção (Wanda Sá, Elizeth Cardoso...) . Na resenha íntima da introdução, a própria Marrom, define, entre risos, sem falsa modéstia: "A gente deitou e rolou ali".
A força da natureza Áurea Martins é a segunda a entrar na roda. Companheira dos tempos de boate, ela divide com Alcione o samba-canção "Pela Rua", de Dolores Duran e J. Ribamar, em dueto intenso, sob os olhares atentos e de admiração de Bethânia. Tudo em casa, em todos os sentidos.
Em "Estate", Alcione reestabelece a alta temperatura do bolero italiano que João Gilberto conheceu no balneário de Viareggio, quando dividiu temporada com a orquestra de um dos autores (Bruno Martino). Ela extravasa como ninguém o verso "odio l'estate" ("odeio o verão") sublimado na versão bossa que ganhou o mundo (e que os admiradores internacionais de João transformaram em standard de jazz). Ainda que o arranjo de Zé Américo Bastos seja suave e elegante, verão com a Marrom é chapa quente.
É nesse clima que chega Emílio Santiago, outro comparsa dos tempos de noite. Com ele, Alcione volta ao universo ímpar de Altay Veloso (e de seu parceiro Paulo César Feital). Uma emocionada troca de olhares entre os velhos amigos – "passou rapidinho, né?", comenta o cantor - e os dois engrandecem "40 Anos", que antes já fora registrada por ninguém menos que Leny Andrade (além do próprio Altay). A letra em forma de crônica abraça a história recente do país com boas rimas e recortes inusitados para desembocar num lalalalá laialaiá gostoso. E mais resenha saborosa...
Antes da chegada de Djavan, Alcione manda sozinha "O Sono dos Justos (Cristo Redentor)", bom samba recente de Marcus Lima e Márcio Proença que não recebeu a exposição devida ao ser gravado no álbum Acesa, de 2009. Com o alagoano, depois da conversa no sofá, ela entra marota, cheia de ginga, na métrica irregular da excelente "Capim" (da excelente safra dele de 1982, álbum Luz), e os dois fazem o difícil parecer molezinha. Daria para fazer um discaço inteiro nessa base...
A sequência tem outra inédita na voz da Marrom, "Passional" (cultuada na voz de Fátima Guedes), pinçada com faro de pesquisador, e o boleraço "Todavía", de Armando Manzanero. Espaço para a catarse da intérprete, com aquele jeitão de botar tudo pra fora que faz a loucura dos fãs. Em castelhano, então, sobremanera... Para completar, uma daquelas da Elizeth (na verdade, de Raul Sampaio e Benil Santos), "Até as Lágrimas", com lindo solo de Edson Santana no bandolim.
Já na reta final, Alcione pega outra cult, "Mesa de Bar", de Gonzaguinha (que ela já tinha cantado em 1985) e trata de honrar o nome Jam Session. Invocada, scateia, pistonzeia (para bem mais do que "air trompete"), caseia e chuleia, criando seu próprio tempo antes de cantar a palavra "democracia" sem uma gota de populismo.
Lenine entra depois como uma surpresa: é o único dos convidados sem uma "vida pregressa" com a estrela. "Sabe por que ele está nesses 40 anos? Porque eu gosto dele", explica Alcione. A escolha para o dueto é igualmente inusitada e bacana, apontando para o Nordeste dos dois: "Evolução", de Valter Souza, gravado originalmente por Ary Lobo (paraense, contemporâneo de Jackson do Pandeiro – 1930-1980), um talento não devidamente lembrado.
Lenine fica na sala para aplaudir o último a chegar: Martinho da Vila, entoando com a anfitriã a genial "Ilha de Maré", um dos pilares – baianos - da carreira de Alcione, e a contagiante "Roda Ciranda" (de sua própria lavra), com todo mundo na palma da mão. Melhor do que isso, só se o DVD viesse com uma provinha, um cheiro das iguarias que a Marrom serve em casa: torta de caranguejo e arroz de cuxá têm poder! Que venha a outra face.
Pedro Só/outubro 2011